Ecos de Deus
I
Viagem universal
Alguém perdido num firmamento
vê o eclipse do requinte.
A cósmica luz cujo sustento
é a partícula que se sente
atravessar os espaços negros,
as cintilantes auras esbatidas,
essa luz de vôos íntegros
que torneia as várias coloridas
faces da matéria, de isto a lira,
à velocidade da luz se apaga.
Escurece, iluminando a mentira.
É a vida o que o vácuo esmaga.
II
A côr da dôr
A dor é réplicas do porvir
degeneradas, impressionismo,
pintalgadas telas do sentir,
representando o malabarismo
de existir. Azul a mágoa,
a púrpura raiva a tingir:
pedras atiradas à lagoa
de estar à beira do fingir.
III
Ecos de Deus
Deus espreita, na mão a ânfora,
e bebe uma poção sem esperança.
Divino é só o que vem lá de fora.
Solene é só a brisa que amansa.
Se tudo apodrece,
que apodreça também o requinte.
O silêncio é uma lira morta.
O ouvido, a consciência calejada.
Que o ar rasgue e desfolhe
isto.